terça-feira, 18 de agosto de 2015

Hoje o Vulva vem falar para (PASMEM) você que é homem e/ou brancx e/ou héterx e/ou cis

Sim, migas, nós decidimos parar pra falar um cadinho com essa gente (risos). E dentre essas pessoas, estamos nós também. O Vulva é feito por pessoas (verdade, não somos robôs). E dentre nós temos também uma diversidade bem interessante. Mas cada uma de nós sofre uma opressão, pelo menos. Ou sejE, não estamos no topo da pirâmide social.

Porém, sofrer de alguma opressão não lhe dá uma carteirinha VIP pra falar de toda e qualquer opressão, e por isso a gente decidiu conversar, nesse momento, com aquelxs que não sofrem determinada opressão. Já já você vai entender o porque.
Parece que a internet tem um poder sem precedentes de fazer com que a gente queira ter uma opinião sobre tudo. E mais do que isso, você precisa dar sua opinião sobre tudo. Ter um posicionamento é quase uma obrigação. Isso pode até parecer maneirão, mas tem hora que enche o saco. E sério, não temos como ter opinião sobre tudo, porque não conhecemos tudo. E a coisa fica perigosa quando estamos falando de opressões.

Recentemente tivemos um debate no grupo do Vulva Fúcsia no Facebook, onde houve silenciamento de mulheres negras e uma insistência de eliminar a questão racial do debate, no qual o tema principal eram os preconceitos e os estigmas do homem negro, que em nenhum momento dissemos que é maior do que o que a mulher negra sofre, muito menos do que o que a mulher branca. Quando se fala de racismo, não se pode apontar que existem outras "questões mais urgentes", negando a importância da questão racial, especialmente se você é branco e não sofre com tais questões. Ou seja, se você não sofre racismo, você não tem vivência para querer dar legitimidade a uma causa que você não sofre na pele, logo, também não pode vir querendo impor uma hierarquia de opressões.
Titia Audre Lorde nos disse que não existe hierarquia de opressões. Ou seja, não se trata de classificar as opressões em conceitos de “maior”, “menor” ou “pior”. E, principalmente, as opressões estão relacionadas.

Uma luta não exclui a outra, mas não adianta curtir foto de bebês negros no facebook, e num debate querer silenciar, direcionar o debate onde se fala de negritude e opressões históricas pra um tema que não tem a ver com as questões de raça, porque não considera importante a questão para o feminismo. E pior: Dizer que as pessoas negras estão exasperadas ao defender seus pontos de vista no debate. Essa é uma tática de silenciamento extremamente violenta, onde os argumentos da pessoa são invalidados por uma suposta "histeria". Nenhuma pessoa é obrigada a ser didática.

Ok, mas issaqui é uma aula ou um post? Não sei, miga. Mas posso te responder porque estamos falando disso:

Aprenda a aprender. Se o assunto é alguma opressão que você não sofre, aprenda com quem sofre. Você com certeza é a favor ou contra aquele assunto, mas naquele momento o que você acha é menos necessário do que o microfone da Britney num show ao vivo (sdds toxic).

Ainda não entendeu. Vamo desenhar!

O assunto é racismo e/ou cultura negra, e você é brancx?
O assunto é lesbofobia e você é héterx?
O assunto é machismo e você não é mulher?
O assunto é transfobia e você é cis?
O assunto é bifobia e você é mono?
Então...



ASS: Moderorxs do Vulva Fúcsia, com amor!

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Êeee e ontem foi dia das mães...
E por isso, nesse momento em q compartilhamos do amor e confraternização (cof), venho por meio deste explicar o pq nós do Vulva sempre estarmos nas redes alfinetando essa instituição q conhecemos como ~ família~.
Quando a gente 'fala mal' da família, não quer dizer que não gostamos dos nossos pais, que não temos vínculos afetivos com os integrantes da nossa própria. Não é isso. Nossa objeção à família está ligada a esse conceito de família nuclear burguesa,nascida no século XIX p suprir as demandas de uma nova subjetividade (procure no Wikipédia) que estava sendo formada naquela época.  

Essa família que tivemos como modelo (mãe, pai e filhinho), nem sempre foi constituída dessa forma. Se pegarmos os modelos de como os feudos eram organizados (tendo como base acultura europeia), ou mesmo as aldeias indígenas (se tratando de Brasil), ou outras comunidades do mundo... (procure no Wikipédia 2) podemos perceber que a relação entre as crianças e a comunidade se dava de forma diferente, as crianças eram de responsabilidade da comunidade ou da aldeia, não apenas dos seus pais especificamente. 

    Com as mudanças sociais adquiridas na era vitoriana e com o crescimento econômico graças a revolução industrial na Inglaterra, surge  uma nova maneira de se constituir a sociedade que estava passando por um processo de urbanização. Os reflexos desse período histórico foi disseminado e ainda reflete pelo ocidente nos dias atuais, nesse processo de urbanização, os homens que eram pequenos proprietários de terras, ao saírem do campo para a cidade, passam a ser donos apenas da sua força de trabalho. 

    Nesse processo de mudança e de urbanização, surge também o conceito e um modelo de família que conhecemos hoje como família nuclear burguesa, com o respaldo dos higienistas. Esse modelo familiar parece querer compensar os homens que antes eram proprietários de pequenas terras, estes por sua vez passam a ter posse e o domínio da sua ‘prole’. A família passa a ser de propriedade e responsabilidade do patriarca, e esse passa a ser o responsável por regular e disciplinar a esposa, e essa por sua vez ganha as vezes de dona do lar. Daí a cobrança social da mulher casar virgem, pois esse homem precisava ter garantia que ele, estaria alimentando e prezando pela vida do SEU filho e não de um qq com quem sua mulher pudera vir a ter relações sexuais.

A mulher a todo o momento é vista como posse, posse da família que tem o papel de “adestrar” para que em breve possa ser posse de outro alguém: O marido, à qual ela deve cuidar amar e ser fiel, ao chegar em  casa de um longo dia de trabalho tirar seus sapatos e servi-lo de uma comida quentinha e saborosa, em seguida lavar a louça, por os filhos na cama e enfim terem uma linda noite de amor, ISSO ME LEMBRA  UMA FAMÍLIA  QUE JÁ ESTEVE MUITO NA MÍDIA:




 Por incrível que pareça muitas mulheres ainda vivem nessa condição e por toda uma estrutura patriarcal sair desses relacionamentos abusivos é mais difícil do que um simples discursos de: “ela vive nessa situação porque ela quer também!”, dados de pesquisas apontam que mesmo com a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), ainda contabiliza-se 4,4 assassinatos a cada 100 mil mulheres, número que coloca o Brasil no 7º lugar no ranking de países nesse tipo de crime, além de que na pesquisa realizada na campanha “Compromisso e Atitude pela Lei Maria da Penha – A lei é mais forte” para 70% da população, a mulher sofre mais violência dentro de casa do que em espaços públicos no Brasil. Fazendo o recorte de raça à situação se torna muito mais critica, para além da violência doméstica as mulheres negras sofrem também com a violência no parto, segundo o ministério, 60% da mortalidade materna ocorre entre mulheres negras, contra 34% da mortalidade entre mães brancas. Entre as atendidas pelo SUS, 56% das gestantes negras e 55% das pardas afirmaram que realizaram menos consultas pré-natais do que as brancas. A orientação sobre amamentação só chegou a 62% das negras atendidas pelo SUS, enquanto que 78% das brancas tiveram acesso a esse mesmo serviço.

Nós da Vulva deixamos nosso máximo respeito a todas as mães, guerreiras e resistência, mães periféricas que acordam as 04h30min da manhã pra cuidar dos filhos das madames a fim de no fim do mês não faltar o alimento para seus filhos, as mães guerreiras que são vitimas de violência domestica, as mães que estão em situação de rua e são obrigadas a deixar seus filhos em abrigos, as mães que foram obrigadas a darem seus filhos por não terem condição física, psicológicas e financeiras, as mães que entram na frente do fuzil.



As mães que adotam filhos que não saíram do seu ventre, as mulheres acima de tudo que abdicam das suas vidas para cuidar de outra. Ou mesmo as que por dificuldades que não nos cabe julgar optam por interromper sua gravidez, o que também é muito doloroso pra muitas mulheres. Vocês são foda! São resistência!






Bibliografia de apoio:
http://www.geledes.org.br/mulheres-negras-sao-60-das-maes-mortas-durante-partos-no-sus-diz-ministerio/#axzz3Zr3hQRlh

http://www.compromissoeatitude.org.br/para-70-da-populacao-a-mulher-sofre-mais-violencia-dentro-de-casa-do-que-em-espacos-publicos-no-brasil/

domingo, 3 de maio de 2015

Olár! 

        Nos dias de hoje, com mais gente acessando as redes sociais e tendo como base de formação intelectual esses espaços, temos um número grande de pessoas que tem seu primeiro contato com o tema feminismo por aqui, oq é ótimo, maravilhoso e esplêndido, pode também ter alguns complicadores nos tererê das informações. Quando uma mulher se reconhece como feminista, seja nas redes sociais ou na sua vida, digamos, real... isso não a faz passar por um processo de 'endeusamento amazônico' e ela não se torna a mulher maravilha, ela ainda convive com as mesmas problemáticas sociais q todas as outras mulheres. 
        Em muitos casos da minha vida, eu só solicito ajuda de homens ou de outras pessoas, quando eu realmente não consigo executar tal tarefa, e ainda assim, nesse raros momentos em que ou não tendo força, ou não alcançando, ou tendo medo de andar a noite sozinha na rua até um ponto de ônibus, algumas vezes já me foi respondido à tal solicitação: 'Mas ué, vc não é feminista?!' 
   MAS CARALHO! SOU MULHER, FEMINISTA E NÃO SOLTO RAIOS DE FOGO PELA BUCETA!

       O fato de nos identificarmos como feminista's não nos exime de passar pelas mesmas problemáticas que as outras mulheres. 
        O fato da mulher ser feminista não apaga as opressões do mundo sobre ela/nós. Não a/nos livra de levar/mos cantadas na rua, de ser/mos agredida's ao reagir a elas, de sofrer tentativas de estupro, entre outras violências que a/nós mulher/res sofre/mos diariamente nos espaços. O fato da mulher ser feminista não muda na cabeça de muitas pessoas que a mulher esta errada em sair de casa depois das dez, de que a mulher de saia curta está "pedindo".
       O fato de ser mulher feminista, não me exime de menstruar, de ter dores, de sofrer por questões amorosas, de sofrer com as cobranças familiares que cobram casamento, netos, monogamia e heterossexualidade. Não estamos isentas a nada disso. 
Não nascemos livres, nosso processo de libertação e desconstrução é um processo diário, e enquanto os homens não compreenderem isso continuarão a produzir machismo e outras formas de opressão, mesmo quando pretendem ser companheiros, quando digo homens aqui, to falando dos q se dizem feministas (os feministos, que não abrem mão do protagonismo nem no movimento feminista e não se conformam apenas em ser pró-feministas).
     O feminismo nos dá o poder de refletir sobre as ações cotidianas e opressoras de nossa sociedade, do que é naturalizado, através de muita luta, mas as mudanças não acontecem como mágica. Feminismo ainda não dá poderes mágicos para vencer todas as violências e opressões do mundo.
A mulher é q é feminista, mas o mundo todo ainda não é. Quando uma amiga feminista solicitar ajuda, acredite, que é pq ela realmente deve precisar, não é por comodismo. 
Bjão!

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Hoje vamos utilizar nosso blog para fazer uma denúncia e manifestar apoio à mais uma vítima do machismo. Acompanhamos pelo Facebook a denúncia de um caso de assédio, e pedimos permissão à vítima para falar sobre o caso aqui. Vamos preservar todos os nomes, em pedido da vítima, que teme sofrer retaliações justamente porque a denúncia envolve pessoas do trabalho.

A fala da vítima:

Recentemente recebi uma mensagem pornografica que julguei ser equivocada, pois nunca havia dado qualquer espaço de conversa para a pessoa em questão, então achei que fosse a janela errada.O sujeito em questão é adulta e ciente de seus atos. Publiquei algo a respeito, pq hoje, logo pela manhã, a pessoa enviou uma mensagem se desculpando, mas logo mostrou que não se arrependeu, pois quis iniciar uma outra conversa. Finalizei, excluí e só resolvi falar pq infelizmente isso não é um fato isolado. De vez em quando gente que nem conheço, que me vê comentando em post de amigos, deixa alguma msg, seja ela de "olá", até aí tudo normal, ou umas coisas desagradáveis como "delícia, vc..."

Não considero tais abordagens um elogio, não irei naturalizar e sim, ficarei ofendida com investidas sexuais. 
Não vou considerar normal abrir minha caixa de mensagens e ler o texto de alguém narrando suas fantasias e despejando bobagens,pq simplesmente se acha no direito de tentar a sorte. No referido print a pessoa chega do nada, me chama de exagerada e começa a me ensinar o português que ela diz ser claro. Não sou obrigada a aprender essa linguagem. 
"Ah, foi um elogio! Pq vc ficou ofendida?"
"Vc tá sozinha mesmo... O cara tentou a sorte...


Além disso, a vítima mostrou imagens de uma pessoa próxima tentando invalidar sua denúncia, e justificar a atitude do agressor:


























As pessoas ainda acreditam que quando uma mulher é assediada ela só tem que levantar as mão pro céu e agradecer, porque afinal de contas alguém lhe quer e sua missão na terra, de ser um ser a disposição do interesse masculino, foi cumprida. 


E não, essa visão de que é 'apenas uma investida, vida que segue, deixa isso pra lá', não nos contempla. Cada uma sabe do seu limite, e o que pode ser assédio pra mim, pode não ser assédio para outras, por conta de inúmeros fatores de reprodução cultural, mas se eu digo que me senti assediada e agredida por tal investida não deslegitime a minha denuncia nem a denúncia da amiga. 
Em toda nossa vida, fomos descritas e ditas pelos outros, nosso comportamento ditado e regulado pelos outros, hoje, se temos o minimo poder de nos dizer e nos anunciar, estamos aqui fazendo justamente isso, dizendo que flertar é diferente de assediar, sobretudo se eu não der brecha pra isso, e não é um elogio. E eu nem nenhuma mulher deveria se sentir feliz quando recebe uma cantada canalha, e ser objetificada não nos faz sentir especial.


O assédio é mais uma das estratégias do patriarcado para colocar as mulheres do lugar de frágil. É uma nítida forma de intimidação. O macho pode falar o que quiser pra uma mulher, e se ela reclamar está sendo histérica, não sabe ouvir um elogio. Não vamos nos calar, não vamos aceitar que objetifiquem nosso corpo, que nos intimidem e nos excluam dos espaços públicos! Vamos resistir, por nós e por todas.

Meça suas palavras, e respeite as mina!

terça-feira, 31 de março de 2015


A pouco lendo um artigo da Pesquisadora Djamila Ribeiro sobre o feminismo negro me veio uma reflexão do quanto é foda ser mulher e negra nesse país, para  conseguimos chegar onde estamos foi  preciso  gritar muito, mesmo sem ser ouvida (pelos senhores da casa grande e pelas senhoras também) nós não desistimos como diz Audre Lorde em um dos seus artigos” O que houve na minha  voz  é fúria, não sofrimento. Raiva, não autoridade.”

Resistimos por muitos anos a subalternidade e hoje insurgimos  e resistimos à solidão, aos ataques diários  de  todo tempo ter que estar provando nossa capacidade para que nosso discurso e nossa fala seja legitimada, pelo direito aos estudos e acima de tudo pelo direito a vida e  a saúde, pois do pré-natal ao parto, mulheres grávidas negras e pardas permanecem em situação desfavorável quando comparadas às brancas recebendo 21% a menos de anestesia na hora do parto.
Sojourner Truth , ex escrava que tornou-se oradora, fez seu famoso discurso intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio, em 1851 onde ela questionou:
“Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem – quando tinha o que comer – e também agüentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher?” 


Enquanto mulheres brancas lutavam pelo direito de votar, trabalhar, nós mulheres negras lutávamos pelo direito de minimamente sermos consideradas seres humanos, pois por muitos nem pessoas éramos consideradas.  Vivemos num país onde de acordo com  IBGE (2000) somos 169, 5 milhões de brasileiros, dos quais 50,79% são do sexo feminino. Deste percentual, 44% são mulheres negras e pardas, porém enquanto   90% das mulheres brancas são alfabetizadas apenas 78% das mulheres negras tem esse mesmo direito, a população negra, independente do sexo, recebe 50% menos que a não negra  quando se inclui o recorte gênero a situação fica ainda mais alarmante, ainda segundo fontes do IBGE da década de 90, 23% da população negra(entre pretas e pardas) economicamente ativa, estão no emprego doméstico. Já na população branca este percentual é de 6,1%.
A nossa luta por estar nos espaços acontece diariamente durante décadas, nossa jornada  quanto mulheres trabalhadoras , mães, periféricas, lésbicas, trans... não é recente, mas muitas feministas consideram birra, egoísmo e individualismo quando nós feministas negras exigimos o recorte de raça e classe dentro dos espaços, quando exigimos espaços de fala , respeito a nossas pautas e um olhar mais atento a nossas demandas, essa reação negativa não é algo novo Audre  a muito chamou a atenção de feministas brancas usarem apenas do binarismo homem x mulher e o fato dessa analise ser totalmente simplista fazendo necessário o recorte de raça e classe.
Nós mulheres negras durante anos lutamos para ser ouvidas e faremos isso nem que seja no grito!

MATERIAL DE APOIO:
 
·         http://www.institutobuzios.org.br/documentos/MULHER%20NEGRA%20DADOS%20ESTATISTICOS.pdf
·         http://www.geledes.org.br/quem-tem-medo-do-feminismo-negro/#axzz3VxpukgKL
·         http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,pretas-recebem-menos-anestesia-imp-,703837
·         https://we.riseup.net/assets/171382/AUDRE%20LORDE%20COLETANEA-bklt.pdf

domingo, 22 de março de 2015

Não sou fã da teledramaturgia nacional. Mas não precisa ser fã pra saber o discurso impregnado nos produtos de mídia da tv aberta: novelas com elenco 90% branco (num país de maioria negra, cerca de 53%), onde se mostra sem caricaturizar apenas a vida de quem é rico, bonito e heterossexual. E essa tem sido a realidade das novelas desde que comecei a acompanhar folhetins já na infância.

Pois bem, vamos ao que interessa e falar do último beijo gay do momento que balançou a semana: Entre as atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Thimberg, damas da teledramaturgia e cinema nacional (no caso de Fernanda, até mesmo indicada ao Oscar).  Tivemos já um histórico de beijos gays e boicotes às novelas que os exibiram. Gisele Tigre e Luciana Vendramini protagonizaram o primeiro beijo lésbico na TV brasileira (mas poucos assistiram porque foi no SBT e esbarrou no silêncio ao tratar do tema ditadura militar. A justiça caiu em cima) Tiveram os beijos Globais:  Félix e Anjinho, Giovanna Antonelli e Taina Muller e o da novela  Império entre José Mayer e Kleber Toledo. Todos tinham uma história de fundo para ganhar a aceitação do público. Eram beijos limpinhos, entre gays e lésbicas sem trejeitos, com mais história de amor do que história de casal (história de casal tem trepada, tem briga e tudo mais). Era meio que um KY que os autores colocavam na trama pra poder colocar essas cenas “chocantes” nas novelas.

Então, na trama Babilônia, que já começa com assassinato, orgias e violência, resolveu colocar um beijo gay sem ter uma história explorada, apenas um amor já consumado entre duas idosas e aí vem o chorume de merda nos comentários da internet, com direito a fim de amizades que sobreviveram até ao protesto (coxinhaço) de 15 de março. Podemos apontar 3 problematizações iniciais nesse beijo:
Uma das imagens usadas no boicote à novela
1º Beijo lésbico sem apelo sexual: Afinal, muitos héteros homofóbicos  já tiveram o desejo de ter duas mulheres lésbicas na cama, porque só isso explicaria a enorme quantidade de filmes eróticos com essa temática. Um beijo lésbico que não é objeto de desejo é tratado como aberração pelos segmentos tradicionais da sociedade. Falar disso é como falar de mamilos: exibições de peitos em público que estão ali apenas para serem objetificados são muito bem aceitas enquanto que peitos exibidos em protesto, ou que não estão nos moldes  de beleza, que representam algo além dos peitos, são repudiados e apedrejados.

2° Beijo entre duas idosas: A mulher só tem um momento em que pode exercer sua libido enquanto mulher e ser aceita. Casada, com o marido e pra procriar. E jovem. É, isso mesmo. A sociedade castra a mulher depois de uma certa idade por motivos de menopausa e etc. Cria-se aquele mito do casal de velhinhos que não transa mais, mas que tá junto apenas por amor. Gente, pelamord deus, independente da sexualidade da pessoa, IDOSX TRANSA SIM! MULHER IDOSA TRANSA, MULHER IDOSA LÉSBICA BEIJA, AMA E TRANSA! Se vc acha motivo de panelaço duas idosas beijando só porque são idosas, to torcendo pelo seu envelhecimento precoce.

3º Lesbofobia: Um beijo gay com uma história, em que se conheça a conduta e a história dos gays e ele ainda q seja um pouco afeminado, ele faça a questão de manter a “postura” e só troque carinhos com o “parceiro/companheiro” dentro de casa, dá pra pensar no caso. Agora duas mulheres idosas que nem sei qual é a delas, não interessa quantos anos elas se amem mas eu só vi elas agora passando na rua merece panelaço sim. Fico pensando a mente dessa pessoa se qualquer pessoa tipo eu, você que está lendo, seu filho ou filha beijando uma pessoa do mesmo sexo na rua, meu bem... os casos de lesbofobia e homofobia só aumentam. Acho que isso responde as nossas inquietações.

O beijo da novela não serviu pra mudar a mentalidade do público mas serviu pra expor quem ele é.

domingo, 15 de março de 2015

Gente linda dessa terra Brasil. Não tá sendo fácil pra ninguém. Por isso, viemos através deste post tentar lançar palavras de esperança e força em vosso coração (solta o Kenny G, DJ!)

Somos negrxs, mulheres cis ou trans, homens trans, não binárixs, lésbicas, homossexuais, bissexuais, assexuais, com necessidades especiais, etc. E mesmo dentro desta sopa de letrinhas, somos únicxs, exclusivxs. Mas o sofrimento que passamos cotidianamente nos aproxima de alguma forma. Nossa dor cria uma corda que nos amarra e nos sustenta.

É difícil levantar da cama sabendo que, naquele dia, muitas pessoas serão agredidas, violentadas, assassinadas. Como é complicado ter força pra sair de casa quando você leu no dia anterior a denúncia de um assassinato, estupro, violência doméstica, capacitismo, racismo, homo, trans, lesbo, bifobia. Precisamos arrancar forças de dentro do pâncreas pra enfrentar essa sociedade escrota.

É foda. Sentimos isso todos os dias. E não queremos chegar aqui e dizer que você precisa levantar, precisa enfrentar, precisa lutar. Você não é obrigada a nada, miga. Mas você pode, se quiser, resistir. Nós também queremos pessoas que nos deem força pra brigar. E se você nos der força e a gente der força pra você? Pode acontecer!

Vamos nos fortalecer, nos emponderar. Dá vontade de se jogar na cama, nunca mais levantar. Eu tenho medo, muito medo. Eu tenho medo pra caralho de sair de casa e levar uma lâmpada na cara. Eu tenho medo que minhas amigas sejam estupradas quando voltam pra casa. Medo escorre pela minha alma. Mas o medo não consegue me paralisar, porque quando a gente junta uma cambada de gente que tem medo, conseguimos transforma-lo em uma maré de revolta. Conseguimos nos apoiar, e usar esse medo pra reagir.


Temos demandas específicas, sem dúvida. Mas podemos nos apoiar. Podemos e devemos nos ouvir. E, principalmente, nos questionar sobre as opressões que também reproduzimos. Afinal, nessa sociedade em que a discriminação é estrutural, ao mesmo tempo que sofremos, reproduzimos opressões.



Esse texto é um manifesto em favor do emponderamento, da sororidade. Enquanto houver uma de nós sendo agredidx, ofendidx e humilhadx, não estaremos livres.

domingo, 8 de março de 2015

  
  
     Em pleno século XXI depois de passado décadas e mais décadas da luta sufragista que deu início histórico -em registros popularmente conhecido nos livros- às lutas feministas, depois de queimarmos sutiãs, depois do direito ao uso do anticoncepcional, depois de estarmos cada dia e cada vez mais inseridas no mercado de trabalho, a nós mulheres ainda nos é negado o direito ao nosso corpo,ao uso e a imagem que temos que construir sobre o mesmo.

   Nesses dias que antecederam o dia internacional da mulher, me peguei pensando em algumas coisas no que refere-se ao uso do meu corpo e os espaços. Me deparei com uma situação em que ao sair na porta da sala p ir à academia, me dei conta que meus pelos das axilas estavam um pouco grandes, eu voltei para depilá-los num processo de pseudo-higienização.O que fez com que essa minha atitude chamasse a minha atenção foi o fato de que dias antes uma colega de academia tinha ido com os ‘suvacos peludos’ e eu achei um máximo, quando eu vi pensei que teria coragem de fazer o mesmo, mas não,  não tive, não tenho. No meu processo deformação e empoderamento feminista, percebi que a desconstrução dos papéis e construção de gênero vem se constituindo em relação ao respeito a liberdade ao corpo das outras, mas que por muitas vezes o meu próprio corpo e a minha imagem estão presas ainda nesse processo estético a que somos submetidas na nossa construção do imaginário do que é ‘ser feminina’. 

    E aí, partindo do meu sovaco direto p meu útero, pq to possuída! Quando falo que a gente não tem direito sequer ao nosso corpo, no quesito pelos...imagina no quesito vagina!

   Nós mulheres, somos ensinadas a usar nossa sexualidade como moeda de troca, somos treinadas a não demonstrar desejo e satisfação sexual, e isso reverbera no campo social da culpabilização...  ao sentirmos prazer e de termos necessidades sexuais, e por termos uma vida sexual ativa! (ou, ao menos tentarmos).
É bizarro, no meio de tantas coisas que ainda  temos q conquistar, ainda nos dias de hoje ficarmos batendo em um tecla que já deveria ter sido tirada do teclado. Mas o discurso culpabilizador que cai sobre as mulheres, quando a mesma exerce sua sexualidade é tão forte q, olha, dah vontade de morrer, ou matar! 

   Pensar no meu corpo e nos espaços, é ter que pensar que: se por ventura for chegar um pouco mais tarde em casa, eu não deva ir com aquela minissaia que tanto gosto, pq eu poderia legitimar o direito de um possível agressor sobre meu corpo, pq mesmo sendo a vítima, a cadeira dos réus sempre nos foi destinada.

Quando falamos do quesito aborto então, ÇOCORR DEUS, dai-me paciência! Parece que nós somos hermafroditas, temos os gametas femininos e masculinos e nos autofecundamos. Do homem é tirada toda culpa e responsabilidade do caso, ao homem é destinado o direito ao prazer, e a nós, caso venha acontecer uma gravidez indesejada, independentemente do pq (irresponsabilidade, descuido, falha do preservativo e etc) o peso de uma gravidez indesejada e a carga psicológica-social-moralista-cristã que tenta nos colocar como assassinas, caso optamos por interromper a gravidez, como se cometer tal ato já não fosse sofrível o suficiente. Afinal de contas se transamos, temos que saber que o castigo por isso pode vir... e temos q lidar com isso, caso o bofe não queria assumir sua responsabilidade. E assim nessa criminalização muitas mulheres pobres morrem juntos com seus fetos, graças aos 'protetores' da vida que pregam q 'bandido bom é bandido morto'.
Enfim mugs! 
  

  Esse post de hoje é só um post singelo diante de todas as mazelas que nos aflige, e confesso que hoje é daqueles dias que busco forças p me manter na luta.
   

A vcs todas, mulheres cis, mulheres negras, mulheres pobres, mulheres nordestinas, mulheres da américa lática, mulheres trans!  O meu mais fraterno abraço de sororidade e que Gaia e Isis nos dê forças para continuarmos seguindo derrubando os forninhos do patriarcado! 
Bjão!


domingo, 1 de março de 2015

Oi, meu nome é Caroline tenho 22 anos, sou negra, pobre e periférica.
O lugar onde eu moro é conhecido como favelinha e ninguém quer vir aqui (a não ser nas datas comemorativas quando os ricos vem fazer suas "boas ações" aos pobres miseraveis), mas porque as pessoas não querem ir onde você mora Carol?
Bem, aqui na periferia não tem asfalto e a urbanização passa bem longe, sem falar que os bandidos com e sem farda fazem daqui um deposito de corpos, mulheres são violentadas por seus maridos, as meninas que uns chamam "periguetes" outros "novinha safadinha" estão sujeitas a todo tipo de violência, inclusive uma já foi estuprada aqui no morro e toda vizinhaça escutava seus gritos de socorro.
A pouco menos de  um mês dois "travecos" como são conhecidos por aqui foram mortos ao voltar de uma festa, isso não é novidade pra gente esse foi apenas um caso que ganhou visibilidade.
Papai conta que quando veio morar aqui nem luz tinha,  apenas mato, uma linha de trem e uma lamparina que era acesa com querosene. Papai veio da Bahia com  vovó e vovô, mamãe sempre morou na baixada, só saiu de um lugar ruim para outro.
Emprego pra preto, pobre e com o ensino fundamental incompleto não tem não senhor, vai papai vender bala no trem, cloro na rua, camelo de várias coisas, catar garrafa e papelão, trabalhar nas empreiteiras de obras, se humilhar de todas as formas possíveis pra levar o alimento pra casa, apenas a realidade de mais um pobre e preto. Mamãe sempre trabalhou de empregada domestica entre um banheiro e outro, uma faxina e outra eu quando a patroa deixava ia lá ajuda-la de alguma forma, sempre fui miudinha e rápida quantos banheiros de gente rica já ajudei mamãe lavar, hoje cansada, com suas dores e marcas de tanta humilhação (varizes que correm pelas duas pernas) sua profissão agora é: Do lar.
De todas as opressões que sofria a gordofobia era a que mais me afetava o racismo nem tanto pq  eu era parda e não negra, logo eu não sofria racismo, racismo é coisa de preto, a gordofobia me afetava, me atormentava e eu recebi o delicado apelido de: toupeira de vermelho ( eu era baixinha, gorda e peituda eu amava vestido, mas mamãe não tinha dinheiro pra comprar então ganhei um lindo vestido vermelho que usava quase sempre) dizia eu em resposta as opressões: prefiro ser gorda, toupeira, jumenta a ser um macaco, da cor do petróleo igual a vocês (ser gorda era melhor que ser negra).

Sempre fui uma menina curiosa (sempre),agitada e um passo a frente de onde eu deveria estar, dizia : Vou montar minha empresa e ter muitos funcionários, quero morar em Paris. ( pobre menina periferica e sonhadora, apenas mais uma)
Oriunda de escola pública  que faltava mais professor que ia, conseguir concluir o ginásio e consegui também entrar numa escola onde talvez eu tivesse uma chance de ser "alguém na vida".
A menina até então parda, que mal sabia expressar o português direito, mas cheia de sonhos e esperanças de que a vida poderia ser diferente
Aos 15 anos de idade no Instituto de Educação Rangel Pestana a vida da menina começou a ganhar um novo sentido, embora as necessidades e os perrengues financeiros continuavam os mesmos, roupa doada, matéria comprado com muito sufoco, lanche na cantina nada tinha que esperar a hora do almoço. A vergonha de dizer de onde vinha ainda era maior,embora a  de se expressar com medo de falar errado fosse maior, mas a menina de cada pessoa roubava uma admiração e vontade.
Foi aos 16 anos que li meu primeiro livro,  fui ao cinema pela primeira vez, fui a praia, comi num restaurante, tomei ovomaltine no mc donald e aprendi que eu podia ser mais do que apenas mais uma menina da favela que engravidaria, juntaria os panos pra morar num barraco.
Lá no instituto conheci uma flor, uma pessoa com alma de anjo e toda paciência do mundo pra menina que tinha o  apelido de "pobre" ( pq diziam as amigas não saber se comportar nos lugares), com ela aprendi tantas coisas, aprendi a ser mais humana e tirar todas as armaduras e amarguras que precisei usar contra o mundo. Obrigada Chris!  
Descobri um pré vestibular comunitário,  descobri que podia fazer faculdade, mas como nunca tive exemplos, na comunidade,em  casa ou nos meios de comunicação de pessoas (pardas) igual a mim fazendo uma faculdade fiquei meio desconfiada, mas depois de tanta conversa uma amiga me convenceu.
Fui nesse tal de Pré vestibular social, fui selecionada e estudei de janeiro até novembro, pois papai ficou desempregado e não tinha mais dinheiro pra bancar a passagem. Mas alí também conheci uma alma
Doce que nos ajudava sempre, mais uma anjinha.
Quando recebi a noticia de que eu havia passado pra UERJ eu só conseguia chorar, estava com a Chris e ela me deu um abraço tão lindo que se eu fechar o olho ainda posso sentir, a expressão era de: Dever cumprido.
Chorei, mamãe chorou, papai e irmãos. Primeira da família a cursar uma universidade pública.
Cheguei  em Caxias o campus onde fui aprovada e meu coração explodia de alegria, nunca me.senti tão orgulhosa de mim mesma, a ficha caiu.
Comecei a trabalhar pra bancar as despesas universitária, jornada tripla, saindo de casa no escuro e voltando nele, quantas vezes desistir era o eu queria.
Fiz amigos, sai pela primeira vez do Rj e conheci pessoas que me ensinaram que toda a minha história, todas as dores e humilhaçao dos meus pais, avos, vizinhos e familiares não eram culpa nossa pq não nos esforçamos para "vencer na vida".
Me reconheci negra aos 20 anos de idade, entendi as opressões que me mantiam presas, me livrei delas,  me livrei do seu peso.
Cortei a química do cabelo, mas o corte não foi só externo, a raiz estava por dentro, apertando cada órgão do meu corpo, tapando meus olhos, me fazendo achar que a culpa de tudo era minha por ter nascido preta e que eu deveria fazer por merecer.

Ainda moro na favela,  que ninguém quer chegar, ainda  sofro as opressões por ser mulher, gorda e preta, ainda sou pobre, ainda sou periferica, mas com uma diferença: O racismo, o machismo, o elitismo, o classismo  não ditam regras sobre a minha mente.
Eu MULHER PRETA E PERIFÉRICA   resisto todos os dias. Por nós, pelas outras e por mim e cheguei no Vulva em 2015 para somar, para debater e refletir sobre os diversos assusntos que perpassam em nossa sociedade!
Um grande beijooooooo !!

sábado, 28 de fevereiro de 2015